Estou em São Paulo e, apesar de não ter feito nada a não ser ir do hotel para o escritório e do escritório para o outro hotel e do outro hotel para este hotel, senti um certo alívio em estar na Argentina.
Eu não sabia que o Maluf era candidato a deputado.
A primeira vez que pisei em Buenos Aires foi por causa desta banda.
Nem cheguei a conhecer a cidade direito, mas pelo menos vi dois shows do Primal Scream, esse grupo de doidos e drogados e maravilhosos e gênios e farsantes e roqueiros e eletrônicos britânicos.
Lembro que até tomei uma cerveja entregue por nada mais, nada menos, que o próprio Bobby Gillespie.
Come Together é um dos hinos da minha vida. Representa o fim da minha adolescência. Reflete toda a mistura de indie rock e eletrônica do final dos anos 80. É celebração pura. É como se eu fosse um sorvete derrentendo nas mãos da mulher que amo. É pop perfeito. Por isso, nem posso descrever direito a minha emoção quando, em 1998, gritei Come Together, Bobby! e o amigo da Kate Moss sorriu para mim. Menos de dez minutos depois, a banda tocou uma versão dessa música totalmente rocker, sem as intervenções eletrônicas, mas não menos genial.
Naquela madrugada, voltei a pé para o hotel sem nem imaginar que um dia eu iria me mudar para esta cidade.
A difereça é que naquela época eu não tinha ninguém para dizer kiss me.
O que me faz acreditar que as melhores coisas da vida realmente chegam para quem sabe esperar.
Ali ao lado, na seção de links, você pode encontrar o blog do argentino Liniers. Não é um blog comum. Na verdade, é um site onde você vai poder conhecer um pouco do cara mais genial que conheci na Argentina. Na teoria, deveríamos chamá-lo de cartunista. Mas o cara é muito mais que isso. É um artista com uma visão literária do cotidiano impressionante. Ele consegue fazer a gente chorar de tristeza e de tanto rir ao mesmo tempo.
Atualmente, o Liniers tem uma tira diária no jornal La Nácion chamada Macanudo. Ele também já lançou quatro livros com uma seleção de seus trabalhos. Tive o prazer de conhecer este gênio quando começamos com o projeto Não Perturbe! de Autor na Fox. A humildade dele é tanta que dá vontade de segurar os seus braços e gritar: che, no ves que sos lo más?.
Já tentei fazer de tudo para que os seus livros fossem editados no Brasil. Quero dizer, fiz o que estava ao meu alcance. Bom, se você acessar o blog do Liniers e gostar do que ele escreve, não custa nada espalhar o site por aí. Vamos virilizar o Macanudo pelo Brasil. Envie para os jornais. Diga que quer uma tira diária dele. O pior é que tenho uma estratégia de marketing para vendê-lo no Brasil. Seria algo como o artista preferido da Maitena. Até porque isso não seria uma mentira.
Então... o que você está esperando?
Acesse lá.
Divulgue.
O mundo é bem melhor quando se tem gente como o Liniers para alegrar o nosso dia.
Há exatos 10 anos esta era uma das músicas que eu mais ouvia.
E, você sabe, sou obsessivo. Por isso, quando digo que ouvia, quero dizer que eu colocava Walls no aparelho de som pelo menos umas 20 vezes por dia. Passei um bom tempo da minha vida com inveja do Edward Burns que, logo em seu segundo filme, conseguiu o Tom Petty para compor a trilha. Hoje, cada vez que vejo a capa amarela do disco (para quem não sabe, a trilha do filme She's The One, uma coisa assim mais ou menos com a Jennifer Aniston e a Cameron Diaz) me dá tremores no corpo. É que dá uma vontade danada de ouvir Walls, com aquele arranjo totalmente 60s e a voz sou seu amigo do Tom Petty. E, como presto atenção nos detalhes, tenho uma pequena síncope quando, ao final da música, ele emenda um baby antes do refrão. Foda, foda, foda.
Sim, sim, já se passaram 10 anos.
E eu ainda adoro esta música.
E, como o Tom Petty, estou no caminho para me tornar um tiozinho que sempre anda de All Star.
Uma das maiores catástrofes da música pop foi a invenção do chill out. É sério. Tudo bem que o cara que descobriu que mixar jazz, bossa nova, lounge e outras coisas insípidas com uns blings e blóings deve estar rico. Mas que deveria queimar no inverno com todo o seu dinheiro, deveria. E admito que aquela coleção de discos Hotel Costes tem umas capas sensacionais, além de ter um DJ talentoso (o tal Stéphane Pompougnac). Mas depois vieram o Cafe del Mar, Buddha Sounds e o diabo a quatro. Sério: se você não tem mais nada decente para ouvir que seja tranqüilo, mande um CD virgem para mim que eu gravo para você, sei lá, Everything But The Girl ou Dave Brubeck ou Cat Power ou Marvin Gaye. Qualquer coisa é melhor que essas músicas sem alma. Qualquer.
Só que, para o meu total desespero, essa moda de chill out é o último grito da música em Buenos Aires. Tem uma gravadora aqui que está se especializando em lançar discos com versões de músicas famosas em uma roupagem feita para boi dormir. Tudo começou com o Bossa'n'Stones, que é uma verdadeira heresia. Depois, apareceu um tal de Jazz & 80's, assassinando clássicos dos 80 como Boys Don't Cry do Cure e Purple Rain do Prince. Mas a coisa não parou por aí. A gravadora ganhou tanto dinheiro que logo apareceu Jazz & 90's, Bossa'n'Marley e até um Bossa'n'Stones Volume 2. Aí veio uma gravadora concorrente e lançou um disco de Pink Floyd em versões lounge. É o fim do mundo. Você vai em um restaurante e está tocando um destes discos. Você vai em um café e está tocando um destes discos. O pior é que até show esses grupelhos estão fazendo.
Parece exagero, mas isso é a pasteurização da música pop. É como se a gente vivesse em um grande elevador. É como se a gente estivesse sempre na sala de espera do médico. É como se a gente tivesse sempre o mesmo gosto. E isso é horrível. Porque é assim que funciona a vida: quando tudo tem o mesmo sabor, nada tem sabor.
Há três anos comecei a me interessar por vinho. Não acabei me aprofundando no assunto, muito menos montei uma adega em casa. Até porque se bebo duas taças de vinho já estou chamando todo mundo de meu amor. Aqui na Argentina, claro, estou bebendo bem mais do que o normal. Mas ainda estou longe de ser um conhecedor.
Bom, sendo conhecedor ou não, o fato é que vale muito a pena assistir ao documentário Mondovino, dirigido por John Nossiter. É claro que o objetivo dele foi mostrar que a globalização está matando a arte que existe (existia?) na fabricação do vinho. E o filme abusa de frases soltas e uma edição inteligente para mostrar de que lado está. Mas isso não chega a incomodar. Porque é muito interessante ver como funciona o mercado do vinho hoje em dia, com os seus vilões e heróis solitários.
O único problema é que agora não queremos mais beber vinho americano. O que não chega a ser um problema. Aqui na Argentina a gente só encontra vinho argentino mesmo.
As crianças de hoje deveriam saber que a The Band foi uma das melhores bandas de rock de todos os tempos. Que a sua existência é uma das maiores heranças dos anos 70. Que poucas vezes um grupo de música conseguiu juntar tantos talentos. Que é uma lástima que a gente não ouça falar mais de Rick Danko, Garth Hudson, Richard Manuel, Levon Helm e Robbie Robertson. Assistir ao documentário The Last Waltz, dirigido pelo Martin Scorsese, é uma aula de rock. E, para mim, a performance de It Makes no Difference é o ápice de um show impecável e emocionante. Rick Danko canta como se a mulher de sua vida estivesse indo embora naquele exato momento. E, no final, quando a guitarra de Robbie Robertson e o sax de Garth Hudson se juntam... santos deuses do rock and roll, dá vontade de chorar.
Eu não sei o que eu vejo nesta canção. Talvez seja o acordeão. O que, para um fã de Pogues, é algo muito importante. Ou, quem sabe, é o jeito que a moça canta, fazendo dos versos uma montanha russa, sem respirar muito entre as palavras. Até agora não sei se é brega, se é pop ou se é legal gostar da Julieta Venegas aqui na Argentina. Mas essa música tem aquela magia pop de fazer a gente sorrir. E até o meu lado crítico precisa ser feliz às vezes.
Há anos que cultivo uma antipatia pelo cinema do Pedro Almodóvar. Não sei explicar os motivos que me levaram a esse sentimento. Deve ser o mesmo motivo que me faz não sair de casa para ver um filme do Fernando Meirelles. É o que eu chamo de efeito Regina Casé. Depois de tanta gente dizendo que a tiazinha era engraçada e genial, eu simplesmente decidi que ela era chata demais. E acabei odiando qualquer tipo de movimento artístico carioca. Só que, bem, o Almodóvar não é carioca. E deve ser um dos poucos caras que vive sempre dentro do mesmo universo e nunca se repete. Ou seja, é gênio. E quem sou eu para ter antipatia ao seu trabalho.
E vou dizer uma coisa: hoje vi Volver e fiquei chocado como os seus filmes são sempre tão redondos. Tudo se encaixa. Não existem nós desfeitos. E, mesmo assim, você sai do cinema pensando e pensando e pensando. Talvez esta seja a grande diferença entre ele e os outros diretores que dizem que fazem arte. Os outros se orgulham do fato de contarem histórias que você pode demorar a vida inteira para entender. Com o Almodóvar é diferente. Você entende, você se diverte, você se emociona. Porque, no fundo, no fundo, ele conta histórias que você pode demorar a vida inteira para... esquecer.
Para mim, Volver é o melhor filme do ano. Até porque há tempos que não via um filme tão humano.
Ver um show dessa nova Cat Power deve ser algo de matar cardíaco.
Nunca pensei que aquela garota indie iria se tornar essa mulher sexy de trinta e poucos anos. E que ainda seria assim tão soul e, ao mesmo tempo, tão melancolicamente alternativa. O que é essa banda de tiozinhos de Memphis? O que é o seu charme à frente do microfone? O que são as suas mãos marcando o tempo? E ainda canta descalça para mostrar que a Joss Stone ainda tem muito o que aprender.
E a voz?
Bom, a voz nem perco tempo elogiando. O pessoal do site Popmatters já fez isso muito bem.
That voice, man, that voice. That voice could slice your soul in one note and mend it a verse later. That voice could calm a hurricane.
Uma das minhas bandas prediletas do mundo indie sempre foi o Luna. É incrível como estou ficando velho. Porque lembro exatamente o dia em que comprei o primeiro disco deles em 1992, quando eu era um simples estagiário tentando ser um cara responsável na vida (para ser sincero continua mais ou menos a mesma coisa, tirando o fato de que não sou mais estagiário). Ou seja, há 14 anos eu sou fã do Luna.
Mas, bem, a banda não durou todo esse tempo. Nesse meio tempo, vi um show dos caras em São Paulo e o querido Eduardo Ramos me concedeu a honra de escrever um release de um disco lançado pela Trama. O fato é que a combinação de melodias pop, guitarras indie e a frágil voz de Dean Wareham é algo que sempre me deixou feliz.
Todo esse bla-bla-bla é para dizer que há pouco tempo descobri que foi lançado um documentário sobre o Luna. Tell Me Do You Miss Me, pelo que entendi do trailer, fala sobre o final da banda. Tem uma frase do Dean (que, para quem não sabe, é um lutador da música alternativa desde os anos 80), que me deixou extremamente deprimido: se você é um escritor e vende 100 mil cópias de seu livro, você é um best-seller, mas se a sua banda vende 100 mil discos, é um fracasso para as grandes gravadoras. O pior é que deve ser assim mesmo.
Mas, veja bem, querido Dean, eu estou beeeem longe de ter vendido 100 mil cópias de um livro. Não me venha falar de fracasso. Para mim, você continua sendo o cara.
Não sei quando escrevi texto. Muito menos se foi publicado no blog antigo. Mas encontrei ele no meu computador e decidi colocá-lo aqui.
Disco 2000
Primeira Estrofe
Eu poderia resumir os meus últimos doze anos apenas apontando as linhas do mapa do metrô. Aos vinte, estava aqui, na Zona 5, em uma pequena casa com telhado de madeira barata no subúrbio sujo de fuligem. Aos trinta e dois, na Zona 1, vivendo em meio aos prédios e pessoas e músicas e bares que formam a cidade que as agências de viagens costumam chamar de capital da Inglaterra. É fácil, então, entender por que tantos olhares de espanto enquanto ando nervosa pela sala da casa de meus pais. No espelho de bordas enferrujadas acima da lareira, percebo que, na busca desesperada por estilo, acabei me tornando um manequim de plástico, que a cada estação tem a sua roupa trocada na vitrine da loja. Esta sensação de familiaridade, de raízes, começa a me deixar nervosa. Os vizinhos e parentes dizem “Deborah, sentimos muito”, “Deborah, agora você vai ter que cuidar do seu pai”, “Deborah, a sua mãe era tão prestativa”, e tudo o que desejo é voltar para a minha estação de metrô, ver pessoas interessantes e sair para beber sozinha em um bar freqüentado por jovens milionários. No entanto, o único refúgio que encontro é o meu antigo quarto.
Segunda Estrofe
O telefone celular toca no mesmo instante em que procuro o meu isqueiro no bolso do casaco. O display pisca o nome Jon. Finalmente encontro o maldito isqueiro, perdido entre recibos de cartão de crédito e pacotes de balas diet. “Alô”, eu digo enquanto acendo o cigarro, “espero que você saiba que esta não é uma boa hora pra ligar”. “Ou não”, responde ele imediatamente, como se a nossoa conversa fosse milimetricamente arquitetada por um grupo de roteiristas de seriados de televisão. “Não se faça de durona, sei que quer conversar”, completa. E Jon diz que entende as mulheres. Não, eu não quero conversar. Agora, neste exato momento, quero ser histérica. Gritar que a dor é minha, que ontem à noite, enquanto ele dormia em minha cama, chorei sozinha trancada no banheiro. E que as lágrimas caíram mais ao perceber que a tristeza de ter que voltar para a Zona 5, em pleno sábado, era maior do que a de perder uma mãe. Mas ele quer conversar. “Não sei por que você não quis que eu a acompanhasse, pensei que fôssemos namorados”, diz em um tom de autopiedade. Abro o meu armário. Na parte interna da porta, em caneta hidrocor, estão anotados todos os nomes de meninos da escola que um dia se mostraram tão deprimentes quanto Jon. Martyn, por exemplo, adorava falar com o peito estufado que vira os meus seios na garagem de meus pais. A verdade é que nem coragem para me beijar ele tivera. Apostei a minha popularidade namorando os meninos mais desejados da escola, e mal sabia que esta escolha iria valer para toda a minha vida. Talvez Jarvis tivesse razão. Quem? Eu disse Jarvis? Desligo o telefone sem me despedir, espero que Jon entenda o recado, e desço as escadas correndo em busca da Senhora Cocker.
Ponte
“Deborah, querida, você precisa de alguma coisa?”, a Senhora Cocker pergunta como se estivesse falando com uma criança de treze anos. “Eu só queria ter notícias do Jarvis”, digo com a voz trêmula. Ela sorri ao mesmo tempo em que os seus olhos se enchem de lágrimas. Mães são assim mesmo. Nunca esquecem. Ela e minha mãe sempre tiveram o sonho de ver os seus dois filhos casados. “Por que não pergunta para ele?”, ela diz. “Ele está na fonte, lá no final da rua”, continua. “Obrigado”, agradeço e me dirijo com pressa à porta. E quando coloco as mãos na maçaneta sinto que estou na ponta dos pés feito uma criança de cinco anos de idade.
Refrão
Sorrisos são como códigos de barras. Dizem quem você é, quanto você vale, o que você traz consigo. São etiquetas permanentes, com todas as informações necessárias para que um possa reconhecer o outro. Entre os diversos homens vestindo o uniforme do Arsenal, assistindo ao jogo de futebol no telão colocado à frente da fonte, naquele mesmo lugar onde costumávamos torcer pelo English Team nas Copas do Mundo, enfim, entre todos estes operários gordos e suados, é pelo sorriso que imediatamente reconheço quem procuro. Sim, ele já não é mais o adolescente que batia à minha porta, e por lá ficava horas esperando pela minha saída que nunca acontecia. A cerveja, o trabalho braçal e o típico descuido masculino fizeram com que perdesse a sua aparência inocente. Mas quando sorri, ao ouvir uma piada provavelmente de mau gosto de seus amigos, Jarvis coloca para fora o carinho que, mesmo sem admitir, sempre desejei ao meu lado. E quando os seus olhos me encontram, não sinto que estou sendo observada pela minha roupa, pelos meus cabelos, pelo meu corpo esculpido em sessões de academia e massagens localizadas. Pela segunda vez no dia, tenho a impressão de estar desnuda. Este é o problema de voltar para casa. O ônus de pegar o metrô e descer na Zona 5 é reencontrar a garota que tentei esquecer. Mas não é tão ruim assim. Nunca é tarde demais. Nunca.
Terceira Estrofe
Jarvis ajeita os cabelos com as mãos quando percebe, e acredita, que estou caminhando em sua direção. “Oi, Jarvis”, digo tentando ser mais simpática possível. “Deborah”, ele fala e dá um passo à frente. O seu abraço parece cobrir todo o meu corpo. Ele deve ter engordado mais de dez quilos desde a última vez que nos vimos há seis anos em uma noite de Natal. “Sinto muito pela sua mãe”, diz sem jeito, mas com sinceridade, “não me senti à vontade pra ir ao enterro, desculpe”. “Tudo bem, Jarvis”, falo, “sei que hoje é dia de jogo”. Ele leva as mãos ao rosto, envergonhado. “O jogo já terminou?”, pergunto, “porque eu queria conversar com você”. Ele ajeita novamente os cabelos. Nossa, como são oleosos. “Já, já terminou, ganhamos, desculpe, sei que isso não importa, mas, bem, o que você tava dizendo mesmo?”, as suas palavras saem nervosas. “Só queria conversar, não sei, quem sabe beber alguma coisa, de repente eu estava lá, pensando em como organizar a vida sem a minha mãe e, não sei, simplesmente me dei conta que precisava me reconectar com o passado, com a minha infância, com a minha adolescência”, falo como se nós fôssemos íntimos. Ele ouve boquiaberto. “Desculpe, Deborah, mas não tô entendendo”, diz. “A verdade Jarvis é que deixei de ser eu mesma no momento em que decidi que deveria te esquecer se quisesse ser alguém na vida”, desabafo. Você vê como são as coisas. Anos de terapia e em menos de 24 horas descubro por que diabos me tornei esta mulherzinha desprezível e infeliz que sou hoje.
Quarta Estrofe
Tenho vontade de chorar. De ser mais uma vez histérica. De correr de volta ao cemitério e pedir desculpas à minha mãe. Que filha é essa que tem vergonha de sua própria família? Que filha é essa que não é capaz de visitar a sua mãe em um hospital? Que filha é essa que se irrita com o fato de ter que ir em um funeral em um sábado porque é preciso desmarcar o cabelereiro? Até um jogo de futebol é mais plausível que um cabelereiro que cobra mais de cem libras para cortar as suas pontas. Mas não choro. Apenas olho com tristeza para Jarvis, que, coitado, não entende nada. “Sei que nada disso faz sentido, mas queria te dizer que não havia nada de errado contigo Jarvis, ao contrário do que fiz você pensar, você valia muito mais do que todos aqueles garotos idiotas com quem saí”, mais uma vez desabafo. “Mas, Deborah, você chegou com dois anos de atraso”, ele diz sorrindo. “Hã?”, não entendo o que quis dizer. “Você não deve lembrar, mas naquele concurso de talento da décima série, eu cantei uma música que escrevi pra você, que dizia que a gente iria se encontrar aqui mesmo nesta fonte no ano 2000”, explica Jarvis, “e agora estamos em 2002”. A minha barriga dói. Acho que agora vou chorar. A melodia era tão linda, e mesmo assim eu disse a todos que ele estava sendo ridículo. “E o que mais dizia a música, Jarvis?”, quero saber. “Que você estaria casada, que eu iria conhecer o seu filho em um domingo qualquer, essas coisas”, ele conta. “Você errou”, falo, “não sou casada, nem tenho filhos”. Mais um sorriso. Quero outro abraço, quero ser coberta por completo de novo, quero sentir o que nunca tive coragem de sentir.
Ponte
“Deborah, você aceita tomar um café comigo?”, Jarvis pergunta ainda sorrindo. O telefone celular volta a tocar. Jon o display avisa. Mas tenho um chamado mais importante. Jarvis este sorriso diz. “Aceito, claro”, respondo no exato momento em que aperto a tecla off do aparelho.
Refrão
O café esfria enquanto falamos de nossas vidas. Ele diz que sente inveja de meu dia-a-dia no centro financeiro de Londres. Eu aposto tudo que tenho na certeza de que ele se diverte muito mais. E aposto tanto que combinamos um outro café amanhã à noite. Jarvis me acompanha mais tarde no caminho para o metrô. “Será que você pode cantar aquela música pra mim de novo?”, peço. “Algumas coisas, Deborah, são melhores no passado”, diz ele, “mas posso escrever uma música nova”. Nós sorrimos juntos. E agora, enquanto a Zona 5 se transforma em Zona 1 na velocidade do metrô, descubro que a morte às vezes faz com que você nasça novamente. É uma metáfora barata, eu sei, mas sou assim mesmo. Uma suburbana de pensamentos baratos, ordinários e medíocres. E já não vejo nenhum mal nisso.
Acho que acabo de completar a minha primeira reportagem fotográfica séria. Foi também uma das raras vezes em que consegui clicar modelos profissionais, se bem que foi tudo muito natural. Na quinta-feira passei o dia todo acompanhando as filmagens de um comercial e decidi levar a minha Olympus Stylus Epic com dois rolos de filmes preto e branco.
Gostei muito do resultado.
Até o final da semana, vou colocar as melhores fotos no Flickr. Clique na foto e veja mais.
E toda vez que vejo um programa sempre penso a mesma coisa. Como é que os jornalistas entrevistados sabem tanto da vida das celebridades? Não é só o conhecimento. O que mais me impressiona é a forma como eles falam dos biografados. Tem uma editora da People que parece que é a melhor amiga de todos os famosos. Os seus depoimentos são muito espontâneos, como se tivesse acabado de almoçar com as pessoas. Para mim, é tudo mentira. Acho que essa jornalista é paga pelos empresários para criar fatos. Afinal, você já sabe: nunca se falou tanto em marketing viral e boca a boca.
Apesar de estar em um clima indie rock, gostei muito do roqueiro álbum de estréia dos Raconteurs. É como se o Big Star encontrasse o Led Zepellin. Tem gente comparando com o Nirvana, mas não sei não... Bom, preciso ouvir melhor o disco antes de um parecer final.
O cara da loja de discos, jornalista da versão argentina da Les Inrockuptibles, queria que eu levasse também o novo (e último no sentido de final mesmo) do Grandaddy. Adoro Grandaddy. Só que tem vezes que parece que estou sempre ouvindo a mesma música. Ele ficou decepcionado com a minha observação, mas até que ficou feliz com a minha escolha dos Raconteurs. Aliás, fica aqui a dica. Se você está pensando em aparecer em Buenos Aires, dê uma passada na Boutique del Libro que fica no bairro de Palermo. Lá no fundo da loja, ao lado do café, está a lojinha de discos da turma da Les Inrock. Sempre tem alguma novidade, discos de bandas francesas desconhecidas e um especialista pronto para bater papo com você. Com sorte, dá até para levar algumas revistas de graça.