Tuesday, October 24, 2006

Fotos novas




Vai lá. É só clicar na foto.

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Monday, October 23, 2006

Big yellow




Este cartaz amarelo.

Eu poderia dizer que Little Miss Sunshine é o filme do ano só por isso. Sou capaz de ficar horas olhando este cartaz amarelo. Por que diabos aquelas pessoas estão correndo atrás daquela Kombi? Não acredito muito em metáforas (sou do tipo de escritor que odeia quando tem gente que vê mais do que deveria ver em meus textos), mas acredito que esta imagem representa a essência do filme. Se você prestar atenção é a partir deste momento, deste simples ato de empurrar um carro e sair correndo para entrar a tempo dentro dele, é partir daí que a família Hoover começa a se reestruturar. E é em cenas como estas que um diretor mostra que é fodão. Ou, no caso de Liitle Miss Sunshine, dois diretores, já que estamos falando de um casal.

É óbvio que eu iria gostar do filme. Tem todos os ingredientes que gosto. Só não sabia que iria sair embasbacado e com aquela inveja boa de querer ter escrito esta história. Afinal de contas, quase tudo que escrevo é sobre relacionamentos familiares que sempre se passam em estradas. E também adoro um final redentor. Se bem que a redenção aqui me fez dar boas gargalhadas de felicidade.

E, putz, o que é o Steve Carell? E pensar que queriam o Bill Murray para o papel do Uncle Frank...

Sem mais palavras e análises.

A verdade que é Little Miss Sushine me faz acreditar que ainda somos capazes de criar emoções de verdade nesta coisa insípida que é a cultura pop de hoje.

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Little Miss Sunshine

Vai direto para o meu Top 20.

Depois falo mais.

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Thursday, October 19, 2006

Querido leitor, parte dois

Sobre os meus comentários sobre os comentários dos leitores: se as minhas respostas pareceram um pouco ríspidas, desculpem. Na verdade, eu escrevi tudo aquilo na boa, sem stress. Gosto dos comentários de vocês.

Sorry!

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Wednesday, October 18, 2006

Querido leitor

Sobre os comentários no post abaixo.

1. Sim, eu sou vagal. Sou um escritor de maratonas, entende? Escrevo muito durante quinze dias, depois passo o ano todo sem fazer nada. Para mim, escrever é uma espécie de Corrida de São Silvestre.

2. Todos os textos do antigo Spectorama ainda existem. Mas não tem nada publicável lá não.

3. Espero que tenha noite de autógrafos em São Paulo sim. Apesar de odiar isso.

4. Os meus protagonistas se chamam sempre João, Julia, Pedro e Bruna porque são nomes que gosto e tenho sempre preguiça de inventar novos nomes. Se bem que o Spit se chama Eduardo. Bom, o fato é que odeio ficar pensando em nomes para os personagens. Então sempre uso os mesmos.

5. O livro infantil está sendo devidamente cobrado pela minha agente. De qualquer maneira, seria legal se vocês enviassem um e-mail à Rocco Jovens Leitores pedindo a publicação o quanto antes. Afinal de contas, os caras pagaram por ele. Depois eu consigo o e-mail do pessoal de lá e a gente enche o saco.

6. Mariana, querida, o segundo livro você encontra nas livrarias. Na Submarino parece que tem com certeza.

7. Não quero editar agora o Quando Eu Tiver 64. Se alguém quiser o livro em PDF, clica aí ao lado no blog do Luiz Young.

Era isso! Obrigado pela paciência!

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Livro novo?

Ah, mas eu tenho uma novidade.

A minha editora, com todas as boas intenções, me aconselhou lançar outro romance como o meu terceiro livro e só depois um livro com narrativas curtas. Parece que é melhor para a minha carreira. O irônico é eu tinha esquecido que tinha uma carreira de escritor.

O que eu faço?

Bato o pé?

Ou aceito o conselho?

Se você optar pela última opção, vou ter que pedir férias e me isolar em algum lugar. Afinal, o meu projeto em andamento com mais potencial está na parte 10 de 30.

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Pikachu e Sepultura



Como estou sem tempo para atualizar o blog, decidi fazer o que milhares de pessoas fazem: colocar mais um vídeo do YouTube. Dessa vez, comparto com vocês estes guris argentinos mandando ver num cover do Sepultura. Mais de um milhão de viewers, é mole? O mais legal, segundo a Lelê, é a camiseta do Pikachu do vocalista. É isso aí: metaleiro que é metaleiro é metaleiro desde criancinha.

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Saturday, October 14, 2006

Eu não suporto



Nunca um nome de banda foi tão bem escolhido. Este trio feminino portenho se chama No Lo Soporto. É um indie com um pé no mainstream. Mas escuta só como esta chica canta. Vai dizer que ela não é a pior vocalista do mundo?

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Tuesday, October 10, 2006

Algo que vale a pena

Você sabe: quando eu gosto de algo, eu gosto de algo.

Fui atrás de uma dica do Mini e acabei me surpreendendo. A banda Pública de Porto Alegre é tudo o que nunca esperei e, ao mesmo tempo, sempre esperei em uma banda gaúcha. No som dos caras está latente todas as influências que geralmente encontro nas minhas bandas prediletas: a busca pela melodia perfeita, o clima de inverno inglês, os arranjos abbey roadianos. Só que você ouve o vocal e imediatamente pensa: putz, isso é rock nacional. Sim, nacional. Rock nacional, brasileiro, com mais qualidade e honestidade que todos os vencedores do VMB juntos. Está certo que escrevi este texto depois de ouvir apenas uma música da Pública. Mas, sei lá, se eu fiquei arrepiado depois de 30 segundos de Long Plays é porque algo existe. Como diz a própria letra da canção: no fundo deste poço achei algo que vale a pena.

Vai lá na página deles no site da Trama Virtual e tire as suas próprias conclusões.

P.S.: Se você é amigo de alguém da banda, avisem os caras que me ofereço já, agora, aqui, para escrever o release do disco deles (parece que sai este ano pelo selo Mondo 77).

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Sunday, October 08, 2006

Heartbeats



Falando em músicas para comerciais, ontem comprei o disco Veneer do sueco José González. Com um nome desses, é difícil de acreditar que o cara é nórdico. Explico: ele é filho de argentinos. Bom, o fato é que ele já era meio conhecido no mundo indie, com as suas canções acústicas e intimistas, que lembram um pouco o Kings of Convenience. Mas aí apareceu outro argentino, o publicitário Juan Cabral que trabalha em Londres. Ele teve uma idéia simples, genial e, ao mesmo tempo, quase impossível de produzir para vender as televisões Bravia da Sony. E achou que a versão que o González fez para Heartbeats (de outro grupo sueco, se não me engano, chamado The Knife) era perfeito para o comercial. Resultado? O spot Balls ganhou todos os prêmios no ano passado, virou mania na internet e o González hoje está mais conhecido.

E o disco? É bom? Sim, é muito bom. São 11 canções supersimples, quase todas só com violão e voz. É uma trilha perfeita para brunchs ensolarados em domingos de sol. Sei que brunh não soa nada indie. Mas é que sou um indie que adora comer bem. Não sei se Veneer ganhou uma edição nacional no Brasil. De qualquer maneira, vale a pena baixar pelo menos a Heartbeats e também Save Your Day. Agora, dá uma olhada no comercial da Sony porque é bom demais.

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14th street



Não sei se as produtoras de som para publicidade não são boas aqui na Argentina ou se o pessoal gosta mesmo é de colocar música de verdade nos comerciais. Já vi até spot de Aspirina com Flaming Lips. Agora, a Telefonica daqui colocou no ar um comercial para o dia das mães (que aqui é em outubro) com 14th Street, uma das melhores músicas do Rufus Wainwright. O roteiro é edipiano demais para o meu gosto, mas pelo menos a trilha é nota 10.

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Saturday, October 07, 2006

Hard candy

Hard Candy pode não ser um ótimo filme, mas cumpre muito bem a sua função de thriller psicológico. A menininha anorak (anorak é aqueles moletons com capuz que um dia emprestou o nome para rotular bandas indies inglesas) dá nos nervos com aquele misto de pretensão adolescente e doideira na veia. Gostei também da direção, que consegue ser ao mesmo tempo MTV e teatro.

Dizem que o filme foi inspirado em umas japas que ficam caçando pedófilos na internet. Eu, hein.

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Friday, October 06, 2006

3 acts of love #1

Escrevi esta série há cinco ou seis anos para o lançamento da TXTmagazine (talvez a melhor idéia que já tive na vida).

Aliás, pouca gente sabe, mas o nome da revista foi uma sugestão do meu amigo Will Prestes, da banda Wonkavision, em uma mesa de restaurante de um shopping enquanto eu almoçava com o designer do site (o queridissimo e talentoso Tales Tommasini). A TXT foi uma resposta linda à estética alternativa dos fanzines literários que começavam a pipocar na internet brasileira. Como sou obcecado por design, queria algo esteticamente perfeito e funcional, algo que encontrei no trabalho do Tales e do seu então sócio Renan Schmidt. Ainda hoje vejo poucos sites somente de texto - a TXT não aceitava fotos ou qualquer tipo de imagens - tão bons quanto o nosso. Foram os três mil reais mais bem gastos em toda a minha vida. E cujo lucro foi moral. Algo que, para mim, vale mais que dinheiro.

Bom, chega de nostalgia e autoconfete. Vamos ao texto, que agora acho ruim de doer, mas que é meu e não nego.

1. Exatamente às dezenove horas do dia sete de julho do ano dois mil, Ana apagou todas as luzes de seu apartamento e acendeu uma vela sobre o parapeito da janela de sua sala. Vestindo apenas roupas brancas, observou, do alto do décimo andar de seu prédio, centenas de pessoas que, como ela, realizavam um protesto pela paz no país. Talvez eu seja egoísta demais, Ana pensou, mas pouco me importa a paz dos outros, quero é a minha paz. Junto com aquele aperto de um coração sozinho, veio a vontade de fumar. Com um Free entre os dedos, Ana inclinou-se em direção à vela. Mas, por um descuido de suas mãos, ou quem sabe do destino, quem vai saber, a vela desequilibrou-se do parapeito e voou dez andares abaixo.

2. Para quem estava a menos de vinte e quatro horas de seu casamento, Pedro até que caminhava com calma pelas ruas da cidade. Sempre gostou disso. De andar sozinho, com passos lentos e as mãos nos bolsos do jeans. Caminhar era sua terapia. Sentia-se tão bem que até pensou em fazer uma pequena despedida de solteiro. Algo simples: apenas dois ou três amigos, algumas cervejas e, se desse sorte, um show de rock honesto num desses bares metidos a alternativos. Perdido em tantos assuntos para pensar e resolver, Pedro mal percebeu quando a maioria das luzes das casas e apartamentos foram substituídas por velas. Droga, ele lembrou, hoje é o dia do "Basta, Eu Quero Paz!", e eu nem coloquei uma roupa branca. Impressionado com a beleza daqueles pequenos focos de luz em movimento saindo das janelas a sua volta, Pedro parou de caminhar. E, enquanto era hipnotizado por aquela iluminação tão diferente e bela, sentiu algo atingir sua cabeça. O que é isso, ele gritou. E não pôde acreditar quando viu uma vela caída ao seu lado sobre o chão.

3. Pedro olhou para cima, tentando descobrir, entre tantas janelas e sacadas, de onde veio aquela vela. E apenas conseguiu ver alguém lhe acenando em algum apartamento do décimo andar. Era Ana, que assustada gritava você tá bem, você tá bem, peraí que vou descer, não sai daí. Ele passou a mão sobre sua testa, sentiu um pequeno arranhão, mas pensou não há de ser nada. Ana desceu os dez andares de escada mesmo, não teve paciência de esperar o elevador. Dizia para si mesma droga, como você é desastrada, poderia ter matado o cara. E, no exato momento em que Pedro ria da situação ridícula, imagina, ser assassinado por uma vela e logo num dia dedicado à paz, Ana abriu o portão do prédio. Por favor, mil desculpas, que vergonha, que vergonha, mil desculpas, ela repetia. Ele falou não foi nada, aconteceu apenas um arranhão, não precisa ficar assim. Ai meu deus, Ana disse, tá sangrando, acho que minha vela era grande demais, tá sangrando, deixa eu fazer um curativo. Tem certeza que aquilo era uma vela, Pedro brincou. Ela sorriu um sorriso nervoso e, de repente, todas as luzes das casas e apartamentos voltaram a acender, ofuscando seus olhos e, pela primeira vez em meses, Ana sentiu que deveria levar um homem a seu apartamento. Por favor, sobe, ela insistiu, eu faço um curativo. Não sei se devo, Pedro disse. Pode confiar em mim, Ana falou, eu jogo velas na cabeça dos outros mas sou inofensiva. É, você tá até de branco, ele comentou. Viu, você não precisa ter medo, ela disse enquanto Pedro já dava os primeiros passos em direção ao portão do prédio, confia em mim, repetiu, eu sou da paz.

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Tuesday, October 03, 2006

Why do I keep counting

Fiz uma experiência: decidi escrever um texto agora, neste exato instante, durante os quatro minutos e meio de Why Do I Keep Counting do Killers. E aqui está o resultado.

O seu banho que nunca termina e a toalha de algodão em cada parte de seu corpo e o creme hidratante que massageia a sua pele e os cabelos molhados e o secador ligado sobrepondo todas as minhas canções punk e o guarda roupa agora aparece infinito e o espelho que olha uma vez e outra vez e mais uma vez e os sapatos que podem ser ou não ser e os sapatos que são e no outro minuto já não são e o batom que beija os seus lábios e a maquiagem Mac jogada sobre a pia do banheiro e um último reflexo no espelho que não pára de olhar e você caminha até a sala e as minhas canções punk continuam pulsando sobre o meu peito e o coração que não sabe mais o que fazer cada vez que os meus olhos se tornam o seu espelho e você diz que estamos atrasados e nós deixamos as nossas mãos se abraçar enquanto abrimos a porta do apartamento e deixamos os nossos corpos implodirem sobre este sol de primavera.

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Matadores

Ontem ouvi o disco novo do Killers.

Acho que merece um post maior. Não porque eu tenha gostado (acho que sim, mas tenho que ouvir melhor). Mas pelo o que o disco representa. Para mim, Sam's Town é o nascimento da próxima megabanda do mundo. Se eles não implodirem com a ambição musical, claro. Tem gente que viu Bruce Springsteen e seu Born To Run. Tem gente, como o meu amigo Marcelo Costa, que viu Queen e Bon Jovi. Eu? Eu vejo gente cantando junto. Muita gente.

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Recadinho

Clica ali ao lado e vá direto ao blog o Mini.

Além da foto do ano, ele escreveu um texto ótimo sobre o VMB da MTV.

Monday, October 02, 2006

I am getting colder

Neste final de semana o festival One Dot Zero passou por Buenos Aires. É um evento que percorre o mundo e mostra o que há de inovador nas artes visuais, motion graphics e afins. Desde que comecei a trabalhar em um canal de televisão estou cada vez mais interessado com o design em movimento. Ainda mais aqui na Argentina, onde tem tanta gente talentosa (vale a pena googlear Doma, Punga e Medialuna).

Bom, o One Dot Zero também teve uns shows especiais. Na sexta, a gente viu o United Visual Arts, um dos grupos de VJs mais legais que existem por aí. Foi ótima a apresentação, mas acho que ficaria melhor se o Kraftwerk estivesse a cargo da música. Já no sábado, fomos ver os franceses do Colder. Difícil explicar o som da banda: uma mistura de Joy Division e Fischerspooner, se é que isso é possível. O vocalista é mais parado que poste, mas a cozinha manda muito bem. A parte boa disso tudo foi o preço: 10 pesos. Uma barbada.

Neste final de semana teve também show do Toy Dolls. Mas foi tão bem divulgado que descobrimos só ontem.

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Sunday, October 01, 2006

Manipuladora dos diabos

Um trecho, sem revisão, no livro inacabado Tempo Perdido (ou o que aconteceu com o Spit depois do Clube e antes do 64, se é que você me entende).

Acordei às oito da manhã com o som da porta do apartamento se fechando. Com preguiça de voltar para casa, acabei dormindo na cama nova mesmo. Júlia não esperava me ver tão cedo, óbvio, mas de qualquer forma foi bom a gente ter se encontrado.
– Você já se mudou pra cá?
– Não, claro que não. Só não queria voltar pra casa ontem.
– Por quê? Pra ninguém da sua família te encontrar pra perguntar sobre o que aconteceu?
– Eles já sabem?
– Claro que já sabem.
Não esperava que Júlia fosse assim tão decidida. Comunicar as nossas famílias sobre a nossa separação sem nem ao menos deixar o corpo esfriar. Não esperava isso dela. Mas, antes que você me chame de insensível, é bom esclarecer que eu sabia muito bem que não estava em condições de exigir nada.
– E?
– E o quê, Spit?
– E o que eles falaram?
– É só isso o que importa? O que eles falaram? O que eles pensam?
– Não sei.
– Como não sei?
– Só tô curioso.
E então Júlia me olhou com pena. Ela nunca havia me olhado desse jeito, com uma expressão de que sente pelo o que vai acontecer com o resto da minha vida. E essa foi a única vez em que Júlia e Ana Teresa se pareceram. Porque a minha ex-namorada tinha no olhar a mesma compaixão e tristeza da adolescente que havia me deixado na galeria de discos há dez anos.
– Não me olha assim – pedi.
Mas ela continuava me olhando daquele jeito. E, droga, finalmente me dei conta que o problema nunca foi Júlia ou Ana Teresa, ou as dezenas de mulheres por quem me apaixonei. O problema sempre fui eu. Mas eu é que não iria chegar para Júlia, tão querida depois de ter sido machucada por mim, e dizer algo como “não é você, sou eu”. Sair com uma desculpa feita como essa seria decretar qualquer a morte de todos os sentimentos de Júlia por mim. E, olhando para ela assim, tão linda de manhã cedo com uma camiseta do Sonic Youth, tive essa súbita vontade de deixar as minhas opções em aberto.
– Quem sabe a gente não dá um tempo? – ela propôs.
Um tempo.
Um tempo?
Eu com medo de dizer “não é você, sou eu” e ela sai com esse papo de tempo? Desculpe, desculpe, mas para uma pergunta como essa definitivamente eu não tinha resposta.
– Você precisa de um tempo – falou ela com uma convicção surpreendente.
Só então eu percebi que Júlia sabia que me encontraria aqui. Espertinha. Um dia eu ainda vou conseguir ter o poder de manipulação que as mulheres têm.
– A Kim me falou que o Echo & The Bunnymen vai voltar. Você deve estar muito feliz.
Não, ah, não. Falar do Echo & The Bunnymen é jogo sujo.
– Ela me disse também que o Pedro pensou em te pedir um texto superpessoal sobre a volta da banda.
Eu não sabia disso.
– Eu não tô sabendo disso.
– Eu sei que não.
– E como você sabe?
– Porque o Pedro falou pra Kim depois que você saiu.
– E o que tudo isso tem a ver com a gente?
Júlia sentou na cama ao meu lado, abriu a sua bolsa e tirou as nossas passagens de avião para a tão sonhada lua-de-mel em Londres.
– Você precisa de um tempo, o Pedro precisa de uma história – falou e me entregou uma das passagens. – Não me importo em casar semana que vem ou depois. Só me importo com você. Quero te ver bem. Pegue a sua passagem, vá pra Londres, escreva a sua história.
Eu precisava de um cigarro. Mas não quis arriscar tudo outra vez por um maldito cigarro.
– O que você tá falando?
– Ontem, quando conversei com as nossas famílias, disse que apenas adiamos o casamento.
– Adiamos?
– Sim, adiamos. Porque você precisa aproveitar a melhor oportunidade de sua carreira?
– Oportunidade?
– Não é apenas uma simples oportunidade. É a melhor oportunidade.
– E eu devo aceitar?
Júlia sorriu. E eu entendi o que ela queria dizer com aquele sorriso. Aproveitando que eu estava totalmente desarmado e chocado, ela jogou o seu corpo sobre o meu. Foi provavelmente a melhor transa que tivemos em todo o nosso namoro.
Depois que terminamos, Júlia se vestiu, beijou o meu rosto e disse:
– Aproveite, Spit, aproveite. Porque uma oportunidade dessas não aparece duas vezes.
E foi embora.
Assim, sem mais nem menos.
Manipuladora dos diabos.

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Boca de urna

Há seis anos que não voto.

O pior é que nem me dou o trabalho de justificar.

Nunca parei para pensar se estou sendo ou não um bom cidadão. De qualquer forma, nem sempre fui assim. Na minha adolescência, eu queria passar mais tempo com aquela que seria a minha primeira namorada. E a guria era assim meio politizada. Talvez por influência dos pais, que tinham até o vinil da trilha sonora de Easy Rider. E ela decidiu fazer parte da Juventude Socialista Brasileira e eu, superovelhinha, fui atrás. Fui em três ou quatro reuniões. Mas logo enchi o saco de tanta gente falando de Fidel Castro. Nada contra. É que, depois dessas três ou quatro reuniões, eu e ela já estávamos namorando.

Pronto. Já contei toda a minha vida política para vocês.