The deal
Meeting Cat Power
Nós desmoronamos aos poucos. O cigarro aceso queimando por entre os seus dedos, a lata de cerveja esquentando com o calor de suas mãos, o rosto inundado do suor com gosto de vergonha, nervosismo, paixão. Ele poderia ter perguntado sobre as suas músicas, a sua banda, o seu show, o vestido branco, o tênis Adidas, enfim, até sobre o tempo. Que umidade. Que verão. Será que vai chover? Mas não. Tudo o que conseguiu dizer foi nós desmoronamos aos poucos. Ele poderia ter dito nós desmoronamos aos poucos, corpo, pele, pêlos, poros até o momento que não existimos mais. Porque a sua voz é contra a minha biologia. Você canta e sou apenas alma. Pó. Nada. Um miligrama de homem que tem fantasias adolescentes com as suas canções. Que desejaria dançar em bares esfumaços, com pisos que gemem em cada um de nossos passos sincronizados, deslizar a minha mão até a sua cintura só para que você a puxe de volta para perto de seu ombro. Ele poderia dito eu quero soprar a sua franja com um beijo e depois pegar carona neste vento e, quem sabe, quem sabe, quem sabe, ir até Memphis. Tantas coisas para dizer. E ele ali, imóvel, apenas vendo ela sorrir enquanto se afasta em direção à porta de embarque do aeroporto. São os seus últimos segundos. E, no entanto, a única coisa que consegue dizer novamente é nós desmoronamos aos poucos. Mas, dessa vez, algo acontece. Ela pára de caminhar. Dá meia volta e se aproxima. Com esta voz que é capaz de parar o mundo, ela diz a pessoa certa, assim como a música certa, precisa ser apresentada a você. Só isso. E vai. E voa. E ele, bem, ele fica com a música. Pode parecer pouco. Mas não importa. Restam apenas pó, alma e um miligrama para contar a história.
Este é o último post do ano. Amanhã viajo para as festas e depois tiro umas férias curtas.
Feliz Natal, feliz 2007, muito amor e rock and roll.
Obrigado pela leitura.
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