I would do the stars with you anytime
... e se você quer mesmo saber como foi que tudo aconteceu, ou seja, se você ainda está lendo esta história, é bom que saiba que apesar de ter sido tudo tão idiota, tão adolescente e, por isso mesmo, tão inocente que chega a me dar vergonha, foi algo que me marcou para o resto da vida e que me faz acreditar cada vez mais que você é o que você era aos quinze anos de idade. E, aos quinze anos, eu era um garoto sem o menor tato com as mulheres e que passava o dia inteiro pensando em maneiras de extorquir dinheiro dos pais para comprar mais discos. Mas, claro, também sabia como me divertir. Principalmente quando algum amigo me convidava para uma festa e pedia para eu cuidar do som.
Foi em uma dessas festas, em uma noite fria de Porto Alegre, que conheci Ana Teresa. "Era aniversário de Luis Felipe, o goleador do time de futebol da minha turma de colégio, e ele resolveu deixar todo mundo se embebedar na cobertura do pai dele. Tinha gente de tudo que era série, o que foi uma péssima idéia já que as meninas da nossa idade só queriam saber dos garotos mais velhos. Mas o que eu queria mesmo era me divertir atrás do meu velho toca-discos Gradiente e ficar escolhendo os meus discos de vinil que ficavam em uma caixa de plástico verde-escura. De vez em quando, alguma boa alma me trazia um copo de cerveja ou vodca, ou um copo de cerveja com vodca, isso era o que menos importava. E, claro, alguém sempre tinha um pedido.
"Toca Legião!"
E eu tocava.
"Toca Smiths!"
E eu tocava.
"Toca Talking Heads"
E eu tocava.
"Toca Dire Straits!"
Pronto. Era só pedir algo que eu detestasse para eu ficar de mau humor.
"Dire Straits é chato."
"Chato é isso que tá tocando."
Fiquei muito puto. A música em questão era Bring On The Dancig Horses do Echo & The Bunnymen. Parei de revirar a caixa de discos e levantei a cabeça. Eu precisava ver quem é que ousava dizer uma heresia daquelas. Pela voz já havia percebido que era uma garota, mas, minha nossa senhora, nunca imaginei que fosse aquela garota. Para variar, não consegui dizer uma única palavra. E ela ali, olhando para mim com um tom desafiador. O mais engraçado é que eu tinha um disco do Dire Straits comigo.
"O que houve?"
"O que houve o quê?"
"Sei lá. Você ficou quieto de repente."
Procurei meu copo. Bebi em um gole só. Era cerveja. Eu acho.
É que você acabou de chamar Echo & The Bunnymen de chato."
"Grande coisa. Você chamou Dire Straits de chato."
"Mas Dire Straits é chato."
"Eu não acho."
"Diz uma música do Dire Straits que não seja chata."
"Olha, eu não entendo nada de música. Mas gosto de Dire Straits e gostaria que você tocasse algo deles agora."
"Não tenho nenhum disco deles."
"Tem sim... Tô vendo daqui."
E, então, eu disse algo que até hoje duvido que disse.
"Olha, a única música do Dire Straits que acho decente é Romeo And Juliet, mas é lenta. Até coloco agora. Mas você vai ter que dançar comigo."
Ela ficou me olhando com aquele mesmo tom desafiador. A música dos Bunnymen já estava chegando ao final, daqui a pouco era hora de trocar de música. E, de repente, eu a vi sorrir.
"Tudo bem... Eu danço com você."
Coloquei meu disco do Dire Straits no toca-discos, o pessoal meio que vaiou porque não estavam muito a fim de uma lenta, mas nem dei bola. Saí do meu canto e, ao lado daquela garota de vestido e meias pretas, caminhei em direção ao terraço da cobertura. Fazia um frio dos diabos e meu fiel sobretudo de lã tinha ficado ao lado do aparelho de som. Eu tremia. E, talvez por pena de mim e por saber que tinha me derrotado no quesito música, ela me abraçou mais forte. E eu? Bem, naquela altura do campeonato eu já estava mais do que apaixonado. Tão apaixonado que não consegui dizer nenhuma palavra durante aqueles cinco minutos de dança, simplesmente fiquei quieto, sentindo o cheiro de um perfume do Boticário que toda adolescente usava em 1987 e pensando de onde é que o Luis Felipe conhecia uma menina como aquela. No final da música, ela me disse tchau, eu disse tchau, ela voltou para um canto escuro da cobertura junto de suas amigas e eu saí correndo em direção ao toca-discos e coloquei Boys Don’t Cry do Cure no último volume...
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